Depois que fugiu do combate, ela desviou seu caminho, pois não queria que soubessem onde ia.
Já seria ruim o suficiente voltar a seu mestre para pedir ajuda. Certamente, ela seria castigada e humilhada.
Seu mestre havia sido bem claro. Se ela largasse o treinamento, jamais deveria voltar até ele. Se voltasse, pagaria o preço da desobediência.
Porém, ela tinha esperança de que ele se interessasse nas tais mulheres mágicas. A notícia poderia agradá-lo, pois ele poderia obter novos poderes.
O fato que mais a envergonhava era o de ter sido derrotada por mulheres que mal sabiam usar os poderes que tinham. Essa verdade era tão gritante que, se não fosse pelo espírito da pirralha e por uma arma de fogo, a vitória teria sido dela.
Seu mestre certamente lhe esfregaria na cara que ela errou em ter deixado a alma de uma vítima para trás. Segundo ele, a alma de cada vítima direta deveria ser devorada.
Ela jamais aceitou comer uma alma, por saber o quão doloroso era o processo.
Depois de ficar voando a esmo por um dia, ela ordenou às aves que a levassem até seu mestre.
Então, na quarta, ela cruzava a fronteira do país e chegava à Colômbia.
Já no país vizinho, ela podia sentir claramente o poder de seu mestre. Guiou as aves até ele.
O local não ficava muito distante da fronteira e lembrava uma pequena fazenda que, no lugar de plantações, tinha galpões.
As aves rodearam a casa principal. No ponto mais alto, que ficava a cinco andares do solo, encontraram uma sacada e depositaram o corpo de Raquel lá.
As aves se empoleiraram no parapeito e lá ficaram esperando.
Raquel ficou caída no chão por mais de meia hora, até que um homem abrisse a porta e dissesse em castelhano:
- Parabéns… Seu descuido virou notícia ao redor do mundo… O que foi que eu te ensinei?
- Antes de qualquer plano ser traçado, a descrição deve ser observada. – Respondeu Raquel, desanimada.
O homem vestia calça e camisa social, usava sapatos lustrosos, tinha cabelos pretos e curtos, com cara de bom homem. Uma expressão de responsabilidade, digna de presidente de grandes companhias.
O homem sentou em uma poltrona que havia na sacada, fez um gesto com uma das mãos, fazendo os urubus deixarem o local.
Em seguida o homem acendeu um charuto, tragou e questionou:
- Como você acha que descobriram sobre suas pelúcias?
- Água, por favor… – Pediu Raquel.
O homem ignorou o pedido e repetiu a pergunta. Raquel respondeu:
- As pelúcias estavam sugando muita energia. Eu estava com pressa. – Falou Raquel.
- Sei que, no Brasil, vocês têm um ditado que diz que a pressa é inimiga da perfeição. Se eu tivesse pressa, eu não seria um empresário de sucesso, que hoje tem a rede de lojas que mais cresce na Colômbia, além de ter me tornado um traficante importante. – Falou o homem.
- A energia para as poções vem das drogas? – Questionou Raquel.
- E das balas… Como geralmente as vítimas morrem, elas não percebem os efeitos. - Explicou o homem.
Ele fez uma mordaça de luz vermelha envolver a cabeça de Raquel, se levantou, fez aparecer um chicote vermelho na mão e começou a atacar a mulher.
Ele açoitava seu rosto, seu tronco, braços, pernas, tudo isso sem esboçar reação alguma. Depois que terminou, o homem voltou a falar:
- Sem paciência e planejamento, não se vive quatrocentos e onze anos sem chamar a atenção.
Ele questionou sobre a forma como ela havia sido derrotada.
Raquel contou sobre as mulheres mágicas e sobre o espírito da criança, que há muito tinha sido uma vítima.
Ele suspirou e voltou a falar:
- Quando você abandonou seu treino, eu te falei para sempre comer as almas de suas vítimas, justamente para que coisas desse tipo não aconteçam!
Depois que disse isso, o homem chicoteou Raquel com toda a força que tinha, quase decepando seu braço.
Em seguida ele entrou na casa e, após um minuto, voltou segurando um frasco com um líquido marrom esverdeado. E falou:
- Se me obedecer, te dou essa poção de cura. Do contrário, direi aos brasileiros que capturei a bruxa.
Ele tirou a mordaça de Raquel, que aceitou a poção. Quando ela terminou de beber, as balas pularam para fora de seu corpo e todos os ferimentos começaram a fechar, incluindo o que quase tinha lhe custado o braço.
Quando ela estava recuperada, o homem fez sinal para que ela se levantasse e entrasse na casa.
Quando ela entrou, se deparou com uma sala com uma poltrona, uma pequena mesinha e várias prateleiras de livros e poções.
O homem foi até a pequena mesinha, que ficava ao lado da poltrona, e pegou uma pistola. Ele a entregou a Raquel enquanto dizia:
- Esta será sua prova de lealdade.
Em seguida o homem saiu da sala, demorou cerca de cinco minutos e voltou, trazendo um velho amarrado e amordaçado.
O velho estava chorando. Tinha sinais de desidratação e tortura.
Depois de jogar o velho no chão, o homem lhe tirou a mordaça e se sentou na poltrona para assistir.
Raquel sabia o que o mestre queria, ela deveria dar o passo final em seu treinamento. Ignorando as súplicas do idoso, ela apontou a arma para ele e disparou, acertando em cheio sua testa.
Quando o corpo do velho caiu, o homem falou:
- Envolva sua mão com sua energia e agarre o fio que prendia a alma ao corpo. Em seguida, com a outra mão, envolva a alma com seu poder, até que ela fique de um tamanho que caiba em sua boca.
Raquel obedeceu. Envolveu sua mão direita com um brilho vermelho. Quando a alma estava começando a sair do corpo, ela agarrou o fio dourado que pendia dela, antes que ele sumisse.
Em seguida, com a mão esquerda, ela fez a alma ser envolvida por um casulo vermelho e começou a esmagá-la.
O velho começou a gritar, desesperado, mas era inútil. Assim que a alma ficou do tamanho de um salgado de buffet, Raquel a enfiou toda na boca e a engoliu inteira.
Ela sentiu uma queimação no estômago e uma mordaça energética lhe envolver a boca.
Em seguida ela sentiu como se estivesse envolvida por fogo, cada milímetro queimava, fazendo-a sofrer.
Ela gritava em agonia, mas os sons eram abafados pela mordaça.
Raquel começou a rolar no chão se debatendo. O homem a amarrou com cordas vermelhas e a colocou atrás da poltrona dizendo:
- Isso pode demorar até uma semana. Varia de pessoa para pessoa.
Em seguida, ele se sentou na poltrona, pegou uma revista que estava sobre a mesinha e começou a ler.
Na capa da revista estava uma foto do homem segurando um charuto com os dizeres: “Jorge Ramon, Do Virtual Ao Real”.