Raquel estava no inferno, mas sabia que estava viva.
Lâminas e lixas corriam por dentro de seu corpo, pelas veias, pelos nervos e por sobre a pele, enquanto ela era queimada pelo fogo.
Ela não sentia o tempo passar em meio a tanta dor. Um segundo era uma eternidade.
Porém, da mesma forma que começou, a agonia parou. Ela se viu amarrada e amordaçada atrás de uma poltrona.
Ela se sentiu mal. Estava magra, desidratada e coberta por suas fezes e urina.
Ela se arrastou para fora do esconderijo da poltrona e tentou usar sua energia para cortar as cordas de luz vermelha.
Porém, ela estava muito fraca e desmaiou. Quando acordou, estava dentro de uma banheira cheia de água.
Ela olhou para a esquerda e viu azulejos, olhou para a direita e viu seu mestre sentado sobre a tampa da privada, com um oPad no colo.
Jorge olhou para ela e falou:
- Tome banho, você precisa comer algo. E a sua sujeira você vai ter que limpar. Não deixo faxineiras entrarem naquela sala.
Raquel acenou a cabeça afirmativamente. Jorge questionou:
- Foi a pior agonia da sua vida, não foi?
- Sim senhor… Pareceu uma eternidade. – Respondeu Raquel.
- Lembre-se, agora você não pode mais brincar, você deve planejar… Se morrer, passará por isso o resto da eternidade. – Falou o homem.
Após terminar o banho, se vestiu e foi beber, comer e dormir.
Antes que ela pegasse no sono, seu mestre lhe falou que ela faria uma plástica. Ele não queria que uma procurada fosse vista com ele.
Raquel perguntou como ele esconderia a cirurgia. Ele respondeu dizendo que um cirurgião plástico devia alguns favores a ele.
Raquel dormiu por dois dias e meio, acordando apenas para ingerir líquidos e ir ao banheiro.
Ela acordou na quinta por volta das dez da manhã e ficou no quarto esperando ordens do mestre.
Por volta da hora do almoço, uma empregada levou comida para Raquel e, instantes depois, Jorge entrou no quarto e entregou um livro para que ela lesse. Quando ele ia saindo, Raquel perguntou:
- Se não quer que eu seja vista, por que deixa as empregadas me verem?
- Algumas empregadas são de confiança. – Respondeu Jorge.
Raquel pegou o livro e viu que na capa estava escrito, em latim, “Artefatos Místicos Do Mundo”.
Lendo o livro, ela encontrou informações sobre coisas naturais ou manufaturadas que tinham, por natureza ou de forma imposta, habilidades sobrenaturais.
Porém, um capítulo chamado “As Frutas Elementais” lhe chamou bastante a atenção.
O capítulo dizia que haviam dez frutas, duas para cada elemento, e que elas tinham uma ligação direta com os espíritos regentes da natureza.
O capítulo também falava da habilidade de esconder a identidade de quem comesse a fruta, matando quem por ventura descobrisse a identidade sem a autorização daqueles que as haviam comido ou de pessoas de sua total confiança.
As páginas ainda diziam que a única forma de tirar a fruta daquele que a comeu era através da morte do mesmo.
Raquel começou a rir, apreciando o fato de que teria que matar as mulheres mágicas.
Quando, após o jantar, Jorge foi até o quarto de Raquel, ele questionou:
- O que achou do livro?
- Esclarecedor! – Respondeu Raquel.
- Acredito que você tenha entendido porque nós não podemos ingerir aquelas frutas. – Falou Jorge.
Raquel ficou com cara de interrogação e Jorge falou:
- Nós, que comemos almas, somos desprezados pelos regentes da natureza. Eles nunca vão aceitar que um de nós fique de posse das frutas.
Raquel abaixou a cabeça e perguntou, deprimida:
- Eu posso me vingar, pelo menos?
- Se quer correr um risco destes para nada, quem sou eu para impedir. – Respondeu Jorge.
- O senhor não vai me ajudar? – Questionou Raquel, surpresa.
- Vou terminar seu treinamento. Eu não tenho interesse em lutar por algo que não posso usar. – Falou Jorge.
- Mas elas derrotaram sua aprendiz! Não é como se tivessem derrotado você? – Questionou Raquel.
- Minha aprendiz perdeu pelos erros dela, não pelos meus. – Respondeu Jorge.
Após isto, ele deixou outro livro com Raquel e saiu, deixando-a sozinha com o livro.