Depois que foi deixada na nascente pelo pajé, Tatiane tentou entrar na água. Porém, quando encostou a sola do pé na superfície, mudou de ideia.
O sol estava começando a dar as caras e ela estava sem nenhum aparelho, incluindo relógio, pois havia sido proibida pelo pajé, que queria que ela e Viviane se conectassem à natureza.
Depois de um certo tempo, quando o sol já tinha se mostrado, ela tomou coragem colocando apenas os pés na água. Ela começou a tremer como uma máquina de lavar quebrada, teve soluços, espirrou, sentiu que ia desmaiar, mas permaneceu firme.
Por mais duro que estivesse sendo, ela sabia que aprender a controlar melhor seus poderes era imprescindível. São Nunca podia sofrer nas mãos de Raquel, que certamente iria buscar vingança, se estivesse viva.
Tatiane se concentrou em seus pés e tentou fazer sua energia fluir através deles. Porém, nada acontecia.
Ela entrou na água até a cintura. Novamente tentou fazer sua energia fluir, porém novamente nada acontecia. Tatiane tentou manipular a água com as mãos, porém o líquido não a obedecia.
Essa falta de resposta da água estava intrigando Tatiane. Geralmente, quando ela conseguia conectar sua energia à da água, ela sentia como se o líquido se tornasse parte de si. No entanto, ela não conseguia se conectar à água da nascente.
Por volta do que Tatiane julgava ser umas dez da manhã, o pajé apareceu e se ofereceu para responder perguntas. Tatiane quis saber por que não conseguia se conectar à água da nascente. O pajé respondeu:
- Esse é lugar poderoso, água sai de pedra. Água limpa sai de pedra, água nova. Mas água é só uma.
Após dizer isso o pajé se retirou, indo na direção de onde estaria Viviane.
Tatiane começou a refletir sobre as palavras do pajé. Ela tentava entender porque aquele lugar era poderoso. Ela se perguntava o que tornava o lugar especial. Então uma luz acendeu em sua mente. Aquele lugar era poderoso por causa da nascente.
Tatiane ficou feliz por ter compreendido, pois entender que a nascente era algo poderoso fez ela entender que seus poderes eram fracos para domar toda aquela água.
Então, como se fosse a coisa mais óbvia do mundo, toda a frase do pajé passou a fazer sentido. A nascente era algo poderoso, porque a água saia das pedras, como se as pedras fossem úteros, dos quais a água que era pura por ter acabado de nascer saía. Água que era pura não por ser limpa, mas por ser como um bebê, e que ao se misturar com a água já existente, só tornava uma só.
Tatiane comparou seu poder de criar água com o da nascente e tentou fazer água sair das mãos, porém nada aconteceu.
Tatiane chegou a pensar que ela não poderia ir além, pois se uma nascente era como um ventre que dava à luz água nova, ela, que não tinha mais a habilidade de ser mãe, não poderia dominar este poder.
Tatiane começou a chorar, se ajoelhando, ficando com água até o pescoço.
Conforme as lágrimas de Tatiane caíam na água, ela se aquecia, chegando a se tornar extremamente confortável, até mesmo aconchegante.
Os movimentos da água passaram a se parecer com carícias e Tatiane foi se sentindo calma e tranquila.
Tatiane notou que o líquido estava se movendo em volta dela, como se dançasse. Ela tentou novamente se conectar à água, porem não conseguiu. No entanto, ao tentar controlar o líquido, este obedeceu.
Tatiane imaginou se suas lágrimas haviam contaminado a nascente, porém isso não fazia sentido. A água tinha se aquecido demais, além de ser estranho ela estar controlando a água sem ter se conectado com ela.
Tatiane imaginou que estava indo no caminho correto, pois ela notou que agora, ela conseguia sentir a água presente no ar, nas árvores, nos insetos; enfim, podia traçar o caminho da água na natureza.
Por causa desta nova habilidade, ela pôde sentir o coração da nascente. Então, tentou se ligar a ele e conseguiu.
O fluxo de água que saia da pedra aumentou. Em vez de gotas, agora a pedra dava à luz um esguicho d’água, que foi aumentando, se tornando um grande fluxo, que fez o buraco onde ficava a nascente transbordar, com água começando a correr pelo solo da floresta.
Enquanto estava ligada à nascente, Tatiane ouviu em seu coração uma voz de mulher que disse:
- Teu desejo de ser mãe é sincero. Um dos deveres da mãe é proteger. Teu poder é um pedaço de mim, então, dê à luz água e a faça justiceira. Hei de confiar em ti.
Tatiane desfez a conexão com a nascente e percebeu, pelo fluxo de sangue, que havia alguém atrás dela. Quando se virou, viu o pajé, surpreso, mas contente, que falou:
- Espirito da água gosta de você. Bom, bom!