Depois que tudo ficou escuro e então clareou, ela se viu sentada em uma rocha, presa a parede de um abismo.
Para baixo, existiam outras rochas como aquela, onde outras pessoas estavam sentadas.
Porem, lá no fundo, antes da escuridão, havia uma estreita faixa de pedra, que ia de um lado ao outro desse abismo, que não tinha fim, nem à esquerda e nem à direita.
Novamente nessa faixa de pedra havia pessoas, sentadas ou deitadas.
Quanto mais próximo da escuridão, mais as pessoas perdiam os traços de sua aparência. Na rocha, perto da escuridão, ela só sabia que pessoas estavam ali, por causa do formato de seus corpos e porque não faria sentido bonecos estarem ali.
Ela resolveu olhar para cima. Viu que não estava longe do que parecia ser o topo.
Ela também viu mais pessoas em rochas acima dela. Notou que, quanto mais próximo do topo, mais traços de aparência a pessoa tinha.
Olhando para si, ela reconhecia a cor de sua pele e o contorno de sua silhueta. No entanto, detalhes como as unhas, os poros e marcas características de seu corpo pareciam não estar lá.
Ela se perguntava como deveria estar seu rosto. Tocou-o com a mão, achando seu nariz, olhos e boca, incompletos.
Ela ficou sentada ali até se cansar e começar a escalar o abismo.
Assim que deixou a pedra, ela se sentiu pesada, como se pesasse dez vezes mais do que realmente pesava, mas permanecia pendurada, firme, se segurando em pequenas rochas que usava como apoio.
Assim que se acostumou com o peso, se puxou para cima. Primeiro um pé, depois uma mão, então outro pé e outra mão.
Foi fazendo isso até chegar em outro patamar onde podia se sentar.
Após descansar, voltou a escalar rumo ao próximo local seguro.
Conforme ela chegava próximo do topo, seu corpo ia ficando mais pesado, tornando a escalada mais difícil.
Então, quando chegou no topo, foi recebida por uma mão de pele negra, que a ajudou a sair do abismo. Era Laura.
Viviane suspirou aliviada. Sentiu vontade de correr na direção de um muro de luz que não tinha fim e ficava ali no topo.
Porém, Laura a fez sentar em uma rocha que ficava ali em cima, se sentando em outra. Em seguida, perguntou:
- — Você entendeu que lugar é esse?
- — O purgatório? — Indagou Viviane.
- — O purgatório é pra quem já morreu. Você ainda está viva. Esse lugar é onde as almas de corpos em coma vêm pra saírem do coma. Assim que você atravessar a muralha de luz, você acorda. – Explicou Laura.
- — Então quem cai na escuridão morre… — Constatou Viviane.
Laura assentiu com a cabeça e contou que Raquel havia sido derrotada, com a ajuda de Ganu.
Viviane ficou contente em saber. Laura voltou a falar:
- — Se você estivesse mais treinada nas questões espirituais, não teria vindo pra cá. Você poderia ficar ao lado de seu corpo ou até vagando por ai, enquanto ajudava a reparar seu fio dourado com sua energia.
Viviane pareceu surpresa e até assustada, mas Laura a acalmou. Viviane perguntou porque elas estavam conversando ali e Laura explicou:
- -— Fui convocada para uma missão junto de outros espíritos guia. Só que eu descobri algumas coisas a respeito de Ganu e você vai ter que continuar daqui.
- — Que coisas são essas? — Questionou Viviane.
- — Primeiro você tem que entender que os espíritos da natureza não são bons nem maus, eles são da natureza. Isso significa que eles vão agir a favor da natureza. — Explicou Laura.
Viviane estava bastante concentrada, pois ela queria fazer a parte dela, não queria deixar Stefani lutando sozinha. Laura continuou:
— Ganu também está fazendo contato com os espíritos da natureza. O que me preocupa é a oferenda que ele tá fazendo.
- — E que oferenda é essa? — Questionou Viviane.
- — Para começar, São Nunca, e as pessoas que morrerem no processo de purificação da cidade. — Contou Laura.
Viviane ficou assustada e Laura voltou a lembrá-la que os espíritos eram da natureza, eles agiriam pró-natureza. Viviane questionou:
- — E onde eu entro nessa história? O que eu faço pra impedir isso?
- — Você vai começar a se encontrar com os espíritos e convencê-los de que Ganu está errado. De que mesmo com cidades substituindo florestas, ainda assim a natureza é respeitada, já que seus elementos ajudam a construir as cidades. Exemplos disso são a terra e a água.
Viviane ficou extremamente apreensiva. Laura, sorrindo, desejou-lhe boa sorte e disse que ela deveria atravessar a muralha de luz.
Viviane desejou boa sorte a Laura e obedeceu.
Assim que atravessou a luz, tudo ficou escuro. Então ela começou a ouvir bips e passou a sentir algo na garganta. Quando ela abriu os olhos enfermeiros já se aproximavam dela para acalmá-la.