A terça amanheceu um pouco mais escura que o dia anterior. Já fazia alguns dias que São Nunca não via a luz do sol.
Viviane já estava esperando, mas não imaginou que aconteceria tão cedo naquele dia. Ela recebeu alta por volta das oito da manhã.
Demorou até que toda a papelada fosse preenchida e assinada, e o acesso fosse retirado do braço dela.
Viviane nunca havia ficado tanto tempo com algo lhe perfurando o braço. Imaginou que o efeito seria semelhante ao da orelha, ficando um buraco no local.
Viviane estava aliviada por entrar em casa, descansar em seu quarto e poder usar roupas. Seriam coisas boas.
A primeira coisa que fez foi tomar um banho, para tirar o ar do hospital e se masturbar com o sabonete e a ducha do chuveiro.
Ela mesma estranhava o fato de não ter tido coragem de fazer isso no hospital. Ela era uma garota, sua masturbação não deixaria rastros.
Quando ela saiu do banho, ficou se encarando no espelho do banheiro. Ela estava impressionada com a qualidade da prótese ocular. A pessoa só perceberia que era falsa se olhasse bem.
Ela começou a testar novos penteados, até gostar de um, que cobria seu olho cego, deixando o cabelo pendurado da testa na orelha, cobrindo o olho como uma cortina.
A garota achou que esse novo penteado lhe daria um ar misterioso e sensual.
Ela se sentou na cama e sentiu um arrepio. Quando olhou para o lado, viu Laura e tomou um susto:
— Desculpe, acho que você não tava esperando. — Disse Laura com um sorriso simpático no rosto.
Viviane não sorriu de volta. Ela abaixou a cabeça dizendo que havia fracassado. Laura se sentou no chão diante de Viviane, dizendo:
- — Fiquei sabendo… Mas a atitude dos espíritos da natureza não me surpreende.
— E a Tatiane? — Quis saber a Loira.
— Ela está terminando a purificação. Mas ela tá ansiosa, sabe que vai encontrar com o filho. – Respondeu Laura.
Viviane sorriu, se sentindo feliz pela amiga, que poderia abraçar o filho morto.
Laura esperou um pouco e falou:
— São Nunca está sem ver o sol há tanto tempo por causa do Ganu.
— Eu tava desconfiada, as aves tão muito estranhas… Mas o que ele quer? — Questionou Viviane.
— É aí que tá, não sei. O estranho é que nem localizar ele eu consigo. Acho que os espíritos possam estar dando cobertura pra ele. — Disse Laura.
— Espíritos filhos da puta! Tem como matar eles? — Questionou Viviane com raiva.
— Não acho que eles deem cobertura porque querem. Também não é fácil localizar Stefani e as outras. Deve ser algo relacionado às frutas. Ele tem seis. — Supôs Laura.
— Legal… Quando eu pensei que a casa tinha caído, uma cratera abriu e levou o entulho. — Falou Viviane deprimida.
— Eu vou me juntar a outros espíritos pra tentar descobrir o que ele quer. — Falou Laura, sumindo.
Viviane só pôde passar a informação para as outras, que não gostaram nada de saber que Ganu estava brincando com o clima.
A garota ainda tentava entender o que a visão significava. Por que São Nunca estava envolta em escuridão?
Viviane temia e sabia que achar Ganu era imprescindível.