Faísca e os pais ficaram parados observando Viviane por um tempo.
Estela não aguentou ficar olhando e saiu da lavanderia, chorando.
Otávio colocou a mão no ombro da filha, dando um leve apertão, saindo atrás da esposa.
Faísca também se sentou no chão, abraçando os próprios joelhos.
Na sala, Cleide se concentrava em suas orações, enquanto a Rádio Rodovia entrevistava um casal abalado que fugia de São Nunca.
Eles relatavam que além das casas destruídas, das enchentes e de enormes correntezas, pessoas que não haviam conseguido se abrigar em lugares cobertos estavam sendo mortas pela força do impacto das gotas de chuva.
Mário e Tiago tentavam costurar os cortes de Jat, que haviam se aberto durante o transporte do andar de cima para a sala.
Então Viviane gritou, alegre e satisfeita, se levantando e correndo para a sala com Faísca em seus calcanhares:
— Achei o Ganu! Ele tá se escondendo dentro da caixa d’agua daquele prédio comercial, perto do Terra do Nunca!
— Mas a gente olhou lá! – Lamentou Wind.
— Só que não dentro da caixa d’agua. — Constatou Jat.
Faísca calçou os sapatos e ajeitou a roupa dizendo que estava indo. Porém, Estela a interrompeu perguntando para Viviane como ela havia encontrado o índio:
— Lembra aquele calor que eu tava sentindo? É a energia que o Ganu tá liberando pra controlar essa chuva. — Respondeu Viviane.
Todos ficaram quietos. Eles sabiam que mandar Faísca sozinha era um erro, mas também sabiam que ela era a única fraqueza do índio.
Wind fez menção de levantar, mas a garota falou para ela ficar, já que vento sozinho não adiantaria nada.
Vagner disse que, se haviam pessoas sendo esmagadas pela água, ela não teria como chegar lá.
Faísca respondeu que tinha uma resistência maior por causa da fruta e que certamente aguentaria.
Estela e Otávio se olharam, sem escolha. Eles sabiam dos riscos, mas também sabiam o que estava em jogo.
Estela se aproximou de Faísca, abraçando-a com toda a força que tinha.
Otávio também se aproximou dando seu abraço mais forte na garota.
Os três começaram a chorar, como se estivessem juntos pela última vez.
Os três se separaram. A garota começou a enxugar as lágrimas, olhando para cada um na sala.
Cleide se aproximou da garota, lhe fazendo o sinal da cruz.
Mário, Vagner e Tiago bateram continência para Faísca.
Jat e Wind desejaram seu retorno.
Astolfo ficou calado, dando uma piscadela significativa para a garota.
Ela foi abraçada pelos pais de Ricardo e depois pelo namorado, que lhe deu um beijo cheio de medo.
Em seguida, ela se despediu dos pais de Viviane e, por fim, da amiga.
As duas se abraçaram. Faísca cochichou no ouvido da amiga:
— Se acontecer alguma coisa comigo, cuida do Ricardo.
Viviane arregalou os olhos, se afastando da amiga e respondendo:
— Não fala essas coisas.
Faísca abriu a porta da sala, deu uma última olhada em todos e saltou, voando na tempestade.
Já no ar, ela não acreditou na força da água. Cada gota tinha a força de um dos socos de Ganu. Ela ainda voava contra eles, o que só piorava o impacto.
Ela tinha que proteger os olhos com os braços, pois temia que as gotas lhe estourassem os globos oculares.
Pensou em descer e se esconder, mas sabia que não podia. Tinha muita gente dependendo dela.
Ela sentiu o peso do mundo nos ombros, mas continuou voando.
Da altura em que estava não era possível ver o solo. O breu que tomava a cidade só piorava a situação.
Mesmo de baixo da tempestade ela conseguiu achar o Terra do Nunca, mas ficou em dúvida entre dois prédios que tinham caixas d’aqua enormes em suas coberturas.
Ela estava sentindo dores pelo corpo todo, como se tivesse sendo espancada.
Abriu a caixa d’agua do primeiro prédio. Não havia ninguém ali.
Seu coração apertou. Será que Viviane havia se enganado?
Então, no segundo prédio, levantou a tampa da caixa e viu Ganu meditando dentro d’agua.
Ele percebeu Faísca ali e arregalou os olhos quando viu a garota.
Faísca pensou em disparar, mas notou Ganu se mexendo e pousou na cobertura do prédio.
Ganu também aterrissou na cobertura, ficando frente a frente com a garota.
Ela pôde ver que ele estava um trapo. Tinha cortes, queimaduras e até sinais de perfuração.
Ela sentiu nojo pelas pessoas que beberam da água da caixa onde o índio se lavou.
Os dois ficaram se encarando. Um não queria falar com o outro, ambos sabiam que aquela situação não se resolveria com palavras.
E assim, os dois ficaram esperando um momento de distração do outro para dar o primeiro ataque.